Monday, March 26, 2007

Casamento, uma instituição

O dia da noiva se encerrava com uma dor de cabeça, causada pelas puxadas agressivas do cabeleireiro para amarrar o arranjo florido e dourado. Com uma postura de dar inveja a qualquer praticante de ioga, Stephany tentava se acomodar com o invisible bra, adquirido numa lojinha da 25 de março, e com a cinta do abdômen, que esmagava seu excesso de peso, chamado carinhosamente de pneuzinho, pelo seu noivo. Era o dia do casamento.
Norberto, impaciente, estava a sua espera no altar. O Fiat 147, emprestado pelo seu avô, já falecido (sim, o defunto emprestou o carro), trazia Stephany. O banco da frente foi retirado, para que a noiva pudesse entrar com maior facilidade no veículo. A maquiagem Max Love aparentava os primeiros sinais de deslizamento no rosto sardento da moça. 19:40...Tã tã tã nã tã...a marcha nupcial.
Os arranjos de rosas vermelhas, girassóis e velas recebiam a noiva. Stephany entrava, a passos curtos e pausados, como ensaiado. Olhava Norberto com seu terno branco de cetim e orgulhava-se do homem escolhido. "Ah esse é o homem da minha vida!". 10 minutos durou a andança pelo tapete vermelho, até chegar ao altar. Com um beijo na testa foi recebida pelo seu futuro marido.
"O casamento é uma instituição...", dizia o pastor. Financeira, filantrópica, pública, humana ou santificada? "O casamento é uma instituição de Deus e humana!". Ufa, esclarecida a questão institucional. O pastor discursava, discursava e discursava. Elisete, a mais encalhada da família, na primeira fileira da igreja, pensava na festa, planejava as estratégias para a captura do buquê. João, 150 kg, imaginava coxinhas de frango gigantescas vindo em sua direção, croquetes e bolinhos de queijo sendo devorados em segundos. Lídia, a bisavó, que durou mais que a vó, fazia movimentos circulares com a dentadura nova, e ruídos eram emitidos de sua "arcada dentária". As crianças conversavam sobre o PlayStation e as adolescentes arrumavam os cachinhos soltos em seus cabelos. Poucos de fato prestavam atenção ao falatório do pastor.
Hora das daminhas. Os cinco primeiros passos foram realizados com êxito, o sexto se desviou. A menorzinha, seguia em direção ao banheiro. "Cocô mãe", dizia a menina. A mais velha teve de seguir o rumo sozinha. Com um sorriso no rosto, se aproximava do altar com as alianças. Lá estavam os belos anéis patrocinados pela Cupido Jóias.
Um colocou em um, que colocou no outro. Pronto, pode beijar a noiva. Norberto havia preparado uma surpresa. Começou a cantar, no melhor estilo de cantor falido de praça de alimentação, a famosa canção da américa. Sim, amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, o que isso tem com casamento, não sei. Mas o que importa é que Stephany achava tudo lindo, até suas alterações na melodia, tentando passar toda aquela emoção. A língua presa transmitia uma naturalidade impressionante às palavras da canção.
Após uma hora, todos os convidados demonstravam sinais de cansaço, seus corpos não aguentavam mais a pesada cerimônia. Os padrinhos coçavam suas varizes e não sobravam mais lágrimas nos olhos. Pronto. Casaram-se.
O Fiat 147 aguardava os dois pombinhos. Que ao invés de seguirem para a festa, iriam em direção a Mariapólis. "Recém-casados" , eram as palavras escritas a batom, no vidro traseiro, logo em cima de "Nóis capota, mas não breca". Jogava-se arroz na lataria do carro, e o barulho semelhante a chuva podia ser escutado. Stephany suspirava, não pela felicidade do casamento, mas porque a cinta apertava-lhe muito o abdômen. Norberto dirigia o veículo. O destino era a felicidade de estarem juntos para sempre. Na saúde, na doença, na alegria, na tristeza, na riqueza, na pobreza...e até que o Fiat 147 os separe.

Saturday, March 10, 2007

A história de um prédio

Lá estava o prédio. 10 andares, com 01 apartamento em cada. Semelhante a um cenário, era possivel notar, pela janelas, as paredes dividindo os dormitórios.
No primeiro andar morava Seu Zé, zelador. Experência de 20 anos na atividade. Conhecia todos e até aqueles que ainda nem moravam lá. Usava bermuda jeans, com cinto preto, regata branca e sapatos Dipollini para elevar sua estatura. Tinha a Léia, faxineira da Dona Crécia, cantava alto como pássaros desafinados. Músicas evangélicas eram as preferidas, "Aleluia Ele está por vir", que venha. E leve a Léia. Os vizinhos não aguentavam mais suas cordas vocais. Subindo, tinha o Pereira. Homem simpático. Era sempre o primeiro a colocar ordem nas reuniões de condomínio. Falando nelas, 5º andar, Seu Nelson, síndico por vocação. Crica, chato, desajeitado e grosso. Seu cachorro seguia a mesma linha. Mais acima, a gostosinha. Era o desejo dos porteiros, guardas e pedreiros da construção ao lado. "E aí gostosa", se um dia não recebesse o típico elogio, sua auto-estima abaixava. Havia tentado terapia, mas não obteve resultados. De fato,precisava do elogio. Viciada em Herbalife. 8º andar, Dona Neide. Dona de casa que não dispensava a mensagem do dia, da Ana Maria Braga. Fazia das palavras da apresentadora seus objetivos de vida e conseguia dar risada do Louro José. 9º andar, Rita, viciada em TV. Marcava com Neide para assistir "Mais Você". Fissurada em Big Brother, votava incansavelmente para algum fulano ser eliminado. Sua vida social era a partir das 22hs, depois que a novela acabava. Vício televisivo, nunca seria curada da doença. E no 10º, e último, morava Freud. O estudante de psicanálise. A escolha do 10º andar era para não escutar os vizinhos chatos, parodoxalmente, seus objetos de estudo.
Um dia o gás da Dona Crécia vazou. Mas Léia cantava tão alto que não sentia o cheiro. Sabe? É como ficar sem óculos e não conseguir escutar. O Pereira sentiu e avisou o Zé, zelador. Porém, na mesma hora entrou a gostosinha e o fez esquecer do gás. E apesar dos seus 50 kg para 1:70, a gostosinha insistia na venda do Herbalife, para o Zé. Aprendeu de tudo, ou quase tudo, no treinamento revolucionário realizado pelo marketing da empresa, "Como vender suplemento alimentar!". Rita e Neide assistiam "Mais Você". A mensagem era sobre aquela luz no fim do túnel, e o gás continuava a vazar no fim do túnel.
O prédio explodiu. Único sobrevivente: Freud. No momento do acidente, estava sentado do outro lado da rua observando o prédio, as janelas, e as paredes divisórias, e tudo parecia um cenário.
Moral da história: é melhor viver numa realidade observatória, do que numa realidade alienatória. Esses sim, sobreviverão.