Saturday, April 26, 2008

Poltrona vazia

Ela não quer ser mais a espectadora do filme que ela mesma criou. Escolheu as cenas, os personagens e era a protagonista. O que aconteceu então? Por que se vê sentada em mais uma poltrona, com um saco de pipocas na mão, tentando entender os diálogos que ela mesma escreveu? Cada fase roteirizada, com uma trilha musical certeira. Figurino, cenário, casting quase que escolhido a dedo...e ela ali. Tanta coisa boa, um filme cheio de alegria. Cores, movimentos com a câmera, figurantes indo e vindo.

E ela continua assistindo.

Muda a cena. Entra uma época de grandes realizações da atriz de cabelos vermelhos. Toda perdida, se vê correndo, feliz, cansada, atrapalhada, inquieta e ansiosa (como sempre). Entram novos personagens e uma nova tarefa. Tudo para que a trama fique cada vez mais empolgante. Alguém coxixa ao seu lado, desvia a atenção. "Hey, dá licença, não me atrapalha, quero assistir meu filme". E esse mesmo alguém retorna a crítica de forma simples e coerente - "O que você está fazendo aqui? Você deveria estar lá. Você é a protagonista."

E ela continua assistindo.

Está tudo longe, ali, na tela. Reconhece e desconhece, em questões de segundos. Enxerga e fica cega a cada vez que tenta entender as passagens das cenas. Ela sabe do que se trata a história. Sim, ela deveria estar lá. Envolvida em cada momento. Todos esperam isso. Eles fazem parte da vida dela, que passa em cada frame. Ama tanto e muitas vezes deixa esse amor sentado na poltrona, junto com o saco de pipoca. Família e amigos. Ela precisa entrar na tela e abraçar todos eles. Deixar a preocupação sem motivos e ser feliz. Ela agradece por terem esperado. Está indo.

Ser protagonista da sua própria história.